Só uma Ideia
Uma ideia que tem ocupado meus poucos neurônios desde o último sábado, quando encerrei minha participação na Edição Pantanal do Maré de Agilidade. Foi a nona edição de um evento que já passou por Brasília, BH, Salvador, Fortaleza e outras capitais. Como outros que compartilham a mesma comunidade – desenvolvedores – o Maré é um evento independente. Quero dizer, não é bancado por nenhum banbanban da indústria. Algumas características deste Grande Encontro funcionaram como um estopim para a ideia que vou apresentar. São elas:
- Itinerante: o evento viaja por aí, dependendo apenas da vontade de uma comunidade local para organizá-lo.
- Voluntário: a comunidade, uma empresa ou um pequeno grupo de empresas, estrutura e promove o evento.
- Independente (de patrocínios): na experiência da Edição Pantanal não houve evento gratuito. Cursos e palestras foram pagos. Instrutores e palestrantes toparam trabalhar com valores bem menores que aqueles que praticam normalmente.
- Provocador: Se fosse possível condensar a mensagem de todos os palestrantes – que são de origens e “credos” bastante diversos – em uma só palavra esta seria: Pense!
- Livre: Todos puderam manifestar seus pontos de vista sem nenhum medo. Não haviam guardiões de corpos de conhecimento nem polícia ideológica.
Mais dois ingredientes nesta cumbuca e a ideia toma forma. O primeiro é a insatisfação com nossas escolas, desgosto que parece generalizado. Os poucos cursos técnicos carecem de visão, apesar da pressão que eles sofrem para “fornecer mão de obra qualificada” e pronta para o trampo. Nossa Academia oferece três caminhos para quem quer trabalhar com desenvolvimento de software, alternativas que nem sempre são bem apresentadas e/ou entendidas. A estudantada rala para encontrar nos currículos, e raramente acha, mínimos vínculos com o maravilhoso mundo novo que carregam, por exemplo, em seus bolsos. Não defendo que a Academia seja exclusivamente orientada ao mercado. Mas é inaceitável o fato dela ser tão desplugada do mundo real.
Enfim, o terceiro e último ingrediente: o tal mercado. Governo e alguns institutos de pesquisa vivem gritando aos quatro ventos que, dentro de pouco tempo, Pindorama demandará sei lá quantas centenas de milhares de desenvolvedores. Chega a ser curiosa a ingenuidade de algumas empresas, sua crença de que nossas escolas, em seu estado atual, seriam capazes de entregar “mão de obra qualificada e 100% pronta para o trampo”. E é irritante a postura de outras empresas, que contabilizam e tratam como despesa a evolução de seus trabalhadores do conhecimento (leia-se treinamentos e afins).
O Estudante-Profissional (ou seria melhor Profissional-Estudante?) fica no meio do caminho, louco para participar desse agito jóia do mundo da tecnologia, mas com movimentos limitados por instituições que parecem não entender lhufas desse louco agito. Fica fácil entender o sucesso de público e crítica de eventos como o Maré de Agilidade. Eles estão ocupando um espaço que nem escolas e nem empresas conseguem preencher.
Chego, finalmente, no momento de colocar minha ideia/provocação. Melhor por partes? Vamos ver:
- E se, do conjunto de eventos independentes que pululam por aí, brotasse uma “Escola Aberta”? Escola no sentido de apresentar trilhas de estudo bem definidas, na forma de currículos “vivos”.
- Por ser Aberta a Escola não teria um processo seletivo. Participa quem quer. Seria uma imensa “Comunidade de Prática”, uma proposta para promover aprendizado que tem entre suas características o fato de seus integrantes se auto-selecionarem.
- Ops… pois é, não haveria nenhuma linha indicando quem é professor e quem é aluno. Contexto, tema e, principalmente, comunidade, definiriam responsabilidades a cada iteração.
- Iteração? Hehe… aos bons entendedores, a palavrinha basta.
- Não haveriam provas, avaliações ou algo parecido. Projetos desenvolvidos na escola (software rodando na cara do ‘cliente’) são a única base necessária para a avaliação dos resultados. A Escola só pode ser julgada pelo “conjunto da obra”.
- A Escola não teria sede. Cada iteração ocorreria em uma cidade diferente. Mas seria transmitida ao vivo para todos os outros lugares. Todas as interações programadas seriam gravadas. Todo o bate-papo virtual seria persistido de forma a permitir que aquele conhecimento esteja disponível para todos a qualquer momento.
- A Escola Aberta não emite diploma porque seus cursos nunca acabam. Ou seja, ela não seria apresentada como uma alternativa às escolas tradicionais.
- Aliás, as escolas tradicionais, com toda a sua estrutura, seriam excelentes hospedeiras desta Escola itinerante.
- Os custos de cada iteração seriam computados por local, respeitando PIB per capita e custo de vida de cada cidade. Os participantes de cada localidade bancariam a hospedagem da Escola, através de uma taxa de inscrição.
- Os custos com transmissões ao vivo e manutenção da comunidade virtual seriam pagos por todos os participantes inscritos, através de mensalidades ou algo do tipo.
- Uma pessoa jurídica, sem fins lucrativos, se faz necessária. Sua direção seria rotativa e escolhida pela própria comunidade. Este trabalho seria remunerado.
- A Escola Aberta, por ser totalmente livre de amarras e obrigações MECânicas, permitirá a experimentação de novas formas de aprendizagem. E fará uso pleno de todas as tecnologias que pretende ensinar.
Eu sei, boa parte do que sugiro acima já acontece hoje, através dos eventos independentes. Resta julgar a viabilidade da discussão de um currículo “vivo” (trilhas de estudo mais elaboradas – menos soltas) e suas consequências (a burocracia necessária). Talvez seja só mais uma viagem de meus poucos neurônios. Como eu disse, é só uma ideia. Mas ela pediu pra sair da minha cabeça.
Assunto esgotado.
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